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Criação da CCBFE e Organização da Categoria

Os serviços de energia elétrica do Espírito Santo eram de responsabilidade do Governo estadual, que os arrendou a particulares, retomando-os posteriormente por não estarem sendo conduzidos de modo satisfatório.

A partir de 1927, o governo admite, com a crescente demanda pelos serviços, a necessidade de mais investimentos no setor. Considerando que o estado não estava capacitado para realizar os investimentos necessários, o governo vende estes serviços para a incitava privada de capital estrangeiro, que constitui a CCBFE (Companhia Central Brasileira de Força Elétrica), para esta finalidade.

No início, a CCBFE fornecia energia elétrica para as principais cidades capixabas. Sua sede ficava localizada na capital e havia uma divisão em Cachoeiro de Itapemirim. O numero de funcionários não ultrapassava 50 pessoas.

Em 1927, surgem em Vitória, as primeiras UNIÕES DE TRABALHADORES. No ano seguinte, surge a União dos Trabalhadores da CCBFE, conhecida como UNIÃO DOS TRABALHADORES DAS CENTRAIS ELÉTRICAS. Essas Uniões eram formadas com base na Constituição Federal de 1891 e as principais lutas eram por melhores salários e pelo cumprimento da jornada de oito horas de trabalho.

Criação do Sindicato operário

A relação da empresa com os funcionários era de cunho autoritário. A gerência local não possuía qualquer autonomia, consultando sempre a sede, situada no Rio de Janeiro, para resolver até pequenas questões. Esta por sua vez, dependia das orientações deliberadas em Assembléias dos Acionistas nos EUA. A postura da empresa em relação aos empregados era de sonegar qualquer conciliação e de querer ver os casos resolvidos sempre pela Justiça.

No tocante às condições de trabalho e salarial, a empresa se pautava estritamente pela lei, buscando não dialogar com seus empregados. A gerência local alegava sempre falta de autonomia para resolver tais questões.

A CCBFE explorava os serviços de energia elétrica em quase todo o Estado do Espírito Santo, além dos serviços de transporte de passageiros através de bondes, barcas, e os de telefonia. Há registro nos jornais de inúmeras queixas, ao longo da atuação da Companha, com relação aos precários serviços oferecidos e das condições de trabalho dos seus empregados, bem como de inúmeras demissões sem justa causa.

É a partir deste contexto que os empregados da CCBFE fundam a 12 de julho de 1931 o Sindicato dos Operários e Empregados da CCBFE, congregando as categorias presentes na Companhia. Ou seja, carris urbanos (bondes), telefônicos e eletricitários, excluindo os empregados das barcas, que eram subordinados à Capitania dos Portos. Foi também o primeiro sindicato capixaba reconhecido no Ministério do Trabalho.

No início do sindicato, havia 66 associados, totalizando todos os empregados da empresa que pertenciam às categorias integrantes do mesmo. Na sua fundação, Rodrigo de Sá Cavalcanti assumiu posteriormente a presidência até a assembléia geral da categoria, realizada em 16 de julho de 1931, cuja finalidade era a "aprovação da diretoria, conselho consultivo e comissões", conduzindo Athanagildo Francisco de Araújo à presidência.

O sindicato possuía sede alugada no centro de Vitória, na avenida Capixaba, e a mesma era gentilmente cedida para atividades de outras organizações sindicais, como foi o caso da fundação, em novembro de 1931, do Sindicato dos Trabalhadores Gráficos, cuja assembléia de fundação ocorreu na sede do Sindicato dos Operários e Empregados da CCBFE.

Em março de 1932, o sindicato elege sua nova diretoria e conduz Gilberto Gabeira à presidência do mesmo.

É importante ressaltar, que os primeiros sindicatos capixabas se constituíram na década de 30 e, neste período, havia intensa participação dos trabalhadores na vida sindical, estimulados pela política Varguista de incentivo à organização sindical.

O Estado varguista procurou, numa primeira fase, controlar o movimento operário e sindical, trazendo-o para dentro do aparelho do Estado. Uma de sua primeiras medidas foi a criação do Ministério do Trabalho, em 1930, com o nítido objetivo de elaborar uma política sindical visando conter a classe operária dentro dos limites do Estado e formular uma política de conciliação entre o capital e o trabalho. Com este objetivo, o decreto numero 19.770 criou a Lei de Sindicalização em 1931. Esse decreto estabelecia o controle financeiro do Ministério do Trabalho sobre os recursos dos sindicatos, proibindo sua utilização nas greves, e definia o sindicato como órgão de colaboração e cooperação com o Estado.

No Congresso Nacional Operário, realizado no Rio de Janeiro em março de 1933, o Espírito Santo se fez representar através de seus principais sindicatos, registrando a presença do Sindicato dos Operários e Empregados da CCBFE, com a participação de Pérsio Nascimento e Gilberto Gabeira, eleitos delegados para tal finalidade.

Neste período, Athanagildo Francisco de Araújo havia reassumido a presidência do referido sindicato.

Nesta época, verificava-se que no movimento sindical capixaba havia uma estreita relação entre os dirigentes sindicais, o que podemos ilustrar com o fato de Gilberto Gabeira, quando da ocasião de sua ida ao Rio de Janeiro para o Congresso Nacional Operário, receber procuração do Presidente do Sindicato dos Ferroviários da Estrada de Ferro de Itapemirim, delegando-lhe poderes para que o mesmo tratasse dos papéis relativos ao seu reconhecimento.

Em abril de 1933, foi eleita a primeira diretoria da Federal Regional do Trabalho do Espírito Santo para o exercício 1933 a 1934, que seria empossada no mesmo mês, em ato solene, sendo eleito Gilberto Gabeira para presidente. Em setembro de 1933, com a proximidade da eleição dos representantes do Espírito Santo na Assembléia Nacional Constituinte, carta publicada na imprensa pelo Sindicato dos Empregados da CCBFE, subscrita pelo seu presidente Athanagildo Francisco de Araújo e mais de 50 companheiros, convocava os trabalhadores da CCBFE a encerrarem fileiras em torno dos candidatos indicados pelo Partido Social Democrático (PSD) intérprete fiel do sentimento revolucionário... a que o interventor, (cap. João Punaro Bley), tem servido com lealdade e desassombro.

A boa vontade do interventor com a classe, patenteada através de atos do Governo, conferia-Ihe uma posição de notável simpatia no seio da massa trabalhadora no Estado.

A carta lembrava a todos, os tempos do regime deposto pelo movimento de 1930 quando só tinham deveres, exaltava a "grandiosa obra que é a nossa Legislação Social, e a gloriosa arrancada nacional de outubro de 1930.

A convocatória do presidente do Sindicato, Athanagildo teve repercussão. Foi eleito deputado classista, com apoio do movimento sindical, o ex-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da CCBFE Gilberto Gabeira, pelo Partido Social Democrático. O fato resultou muna sessão solene em sua homenagem, ocorrida na sede do sindicato e presidida pelo diretor da CCBFE, Mister Forrester.

Uma nova etapa no Sindicato

Para superar as mudanças traumáticas do pós-privatização da Escelsa e preparar o trabalhador para enfrentar futuras adaptações ao mercado de trabalho, o Sinergia-ES passou a investir na qualificação da categoria oferecendo aos trabalhadores várias oportunidades de aumentarem seu nível de escolaridade. Para isso, viabilizou o Curso de Qualificação Profissional com elevação de escolaridade, juntamente com a Cut e a Federação Nacional dos Urbanitários da Cut (FNU-Cut) com recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). Inseridos no Planfor (Plano Nacional de Formação e Qualificação do Trabalhador) o curso tinha como objetivo qualificar os trabalhadores e integrá-los às inovações do mercado de trabalho.

Em tempos de banalização das relações de trabalho e perda da massa salarial da categoria, a diretoria buscava ampliar o leque de benefícios que significassem redução de custos para os trabalhadores. Neste sentido, destaca-se a parceria realizada com as empresas empreiteiras para viabilizar convênios e vantagens aos associados junto a farmácias, clínicas médicas com especialização em medicina do trabalho e dentistas.

Por fim, chegara o tempo das articulações para formação da próxima diretoria (2001/2004). Inicialmente, o quadro político indicava que a empresa estimularia a formação de uma chapa sob a qual manteria controle. Porém, no campo da esquerda, havia a tendência de que houvessem duas chapas, uma formada pelo conjunto da diretoria que buscava recompor-se com a nova eleição sem, entretanto, reconduzir Serginho à presidência; e a outra, controlada por Serginho, em busca da sua reeleição à frente da entidade. Além das divergências ocorridas durante a gestão, havia o entendimento de que a condução dada por Serginho à sua gestão tinha levado o Sindicato ao vermelho financeiramente e ao descrédito no campo político por conta das demissões ocorridas na Escelsa após a privatização e a inserção de mão-de-obra terceirizada, fazendo com que os associados desacreditassem na capacidade de formulação e articulação da diretoria nos momentos de enfrentamento com as empresas. Outras críticas eram dirigidas à prioridade que Serginho dava ao trabalho de representação sindical em nível nacional, distanciando-se da base de sua categoria no Estado. Entretanto, ambas as chapas tentariam vincular-se politicamente ao campo de articulação cutista, um divisor de águas na definição dos votos da base.

A organização da eleição para o mandato 2001-2004 ficou a cargo de uma comissão eleitoral formada exclusivamente por aposentados eleita em assembléia com a missão específica de garantir total lisura no processo. Esta comissão que tinha entre os seus membros Jonas Ferreira Sacramento, José Augusto Lemos e Olavo Pereira Aragão marcou a eleição para 16 e 17 de maio.

Ainda durante o processo de definição política do quadro eleitoral, o Sinergia-ES realizou entre 8 e 11 de março de 2001 o Encontro Nacional dos Trabalhadores de Furnas, em Manguinhos, no município da Serra. A temática reunia uma pauta unificada e específica dos trabalhadores daquela empresa e o evento era feito em parceria com a Associação dos Empregados de Furnas (Asef).

Aproveitando da presença de diversos líderes cutistas nacionais no Espírito Santo, foi programada uma convenção cutista reunindo essas lideranças e dirigentes capixabas com a finalidade de promover o debate e demover as divergências entre os proponentes das duas chapas de esquerda que disputariam o Sindicato. Porém, a chapa organizada por Serginho, sentindo-se em desvantagem numérica, desistiu da participação. Diante da impossibilidade de um acordo com o grupo liderado pelo então presidente do Sinergia-ES os dirigentes da Cut manifestaram seu apoio aos demais membros da diretoria. Insatisfeito com esta decisão, Serginho desistiu da disputa da reeleição.

Para além da questão política interna, o Sindicato foi conclamado pela sociedade a analisar os motivos e soluções para o apagão, um recionamento de energia elétrica relacionado com a insuficiente geração de energia elétrica em todo Brasil a que o governo federal atribuía como causa o volume insuficiente de chuvas nas bacias hidrográficas que abasteciam as principais usinas hidrelétricas do país. O Sinergia-ES revelou a origem do apagão:

A crise de energia por que passa o Brasil atualmente foi anunciada pelos trabalhadores em Energia há mais de 15 anos, quando se observavam os déficits de produção de energia em relação à demanda necessária para manter o crescimento do país em níveis que atendessem as necessidades de produção da indústria, do comércio e da economia em geral.

Até 1989 foram investidos 20 bilhões de reais no setor, valor que caiu para 8 bilhões nos últimos anos. Essa crise não foi só desencadeada há mais tempo devido ao período de estagnação econômica em função do plano real, quando o país cresceu apenas 2% ao ano, sendo que o projetado seria de 6% ao ano.

Dessa maneira, o Sindicato demonstrou que a falta de planejamento do governo federal e o desinteresse das empresas privadas em investir maciçamente no setor elétrico eram as reais causas da situação que ameaçava toda a sociedade brasileira com um colapso do fornecimento de energia elétrica. Coerente com suas afirmativas, o Sinergia-ES entendia que, como sempre ocorria, o povão é que estava sendo penalizado pela má administração dos recursos públicos.

Finalmente, quando já se aproximava o momento da eleição, o presidente em final de mandato, Serginho renunciou em caráter irrevogável poucos dias antes do pleito e, para substituí-lo, assumiu a presidência o secretário-geral Itamar Gaviorno. Desta maneira, foi dada continuidade ao processo eleitoral em que, pela segunda vez desde 1972, 3 chapas disputariam o comando do Sindicato caracterizando o racha na base do Grupo Energia: Energia é Vital (Chapa 1), Reatância (Chapa 2) e Reconstrução (Chapa 3